Em 2016, Tim Kaiser e Lukas Menkhoff investigaram, através da análise de inúmeros estudos (meta-análise), se a educação financeira seria realmente capaz de influenciar mudanças no comportamento financeiro.

Para os autores, o letramento financeiro funciona como uma espécie de intermediário na influência da educação financeira sobre o comportamento, já que é mais fácil aumentar o nível de conhecimento das pessoas do que provocar mudanças em seu comportamento.

No artigo intitulado Does Financial Education Impact Financial Behavior, and If so, When?, Kaiser e Menkhoff analisam 115 estudos independentes publicados entre os anos de 1999 e 2015 e realizados, em sua maioria, nos Estados Unidos e nos países membros da OCDE, sendo 19% em países de média ou baixa renda.

Os estudos analisados trataram dos impactos da intervenção educacional no letramento e/ou comportamento financeiro dos indivíduos e contêm avaliações quantitativas dos impactos dessas intervenções.

Cabe esclarecer que, nos termos do artigo:

  • Educação Financeira é a transmissão de conhecimentos financeiros;
  • Letramento Financeiro é o conhecimento financeiro que um indivíduo possui; e
  • Comportamento Financeiro é a forma como as pessoas se comportam em relação às suas finanças.

Nesse sentido, os autores concluíram que as intervenções educacionais realmente têm impacto significativo sobre o comportamento e quatro vezes mais sobre o letramento financeiro, mas que o comportamento não é afetado de maneira uniforme pela educação financeira, sendo mais fácil incentivar o planejamento financeiro do que reprimir a tendência a tomar empréstimos, por exemplo.

Outro achado importante é que a população é afetada de maneiras diferentes pela educação financeira. Nos países desenvolvidos (de alta renda per capita), ela produz mais efeitos sobre o letramento do que sobre o comportamento e, quanto mais letrada financeiramente a população, menos seu comportamento é influenciado pelas ações educacionais.

Já nos países em vias de desenvolvimento, cujo grau de letramento geral é bem menor, quanto mais letrada financeiramente a população, mais a educação financeira é capaz de afetar tanto o conhecimento quanto o comportamento.

É mais fácil aumentar o nível de conhecimento das pessoas do que provocar mudanças em seu comportamento.

Além disso, os autores ressaltam que a eficiência da educação financeira é maior nas ocasiões que eles chamam de “momentos ensináveis”, nas quais o conhecimento a ser adquirido é imediatamente necessário e, sendo assim, as pessoas têm interesse e motivação para aplicá-lo.

No que diz respeito à faixa etária, os resultados do estudo mostram que o impacto das ações educacionais no letramento é inversamente proporcional à idade, corroborando a hipótese de que pessoas mais jovens têm mais abertura a novos conhecimentos e apontando para a necessidade da educação financeira nas escolas.

Os autores ressaltam ainda que as políticas educacionais não devem negligenciar certos comportamentos (como tomar crédito, por exemplo) e grupos populacionais (pessoas de baixa renda, com baixa educação formal e mais idosas), a despeito da maior dificuldade de atingi-los.

Finalmente, o estudo faz considerações sobre como aumentar a efetividade das intervenções. Considerar o nível de conhecimento financeiro e renda dos participantes do programa, bem como direcionar estratégias para um comportamento alvo, pode aumentar o impacto da educação sobre o comportamento financeiro.

Além disso, combinar a ocasião (momento ensinável) com a intensidade (horas de estudo por semana) pode ser uma alternativa viável, uma vez que ambas têm efeito positivo sobre o comportamento financeiro.

E você? O que pensa ser necessário para que a educação financeira possa provocar uma mudança de comportamento efetiva e duradoura? Acha que é uma questão de aproveitar o momento certo?

Aguardamos seu comentário!

 

2 thoughts on “A educação financeira impacta o comportamento financeiro?

  1. Tenho experiência de vários anos com educação financeira e tenho notado que a educação financeira é mais assimilada e aplicada nos “momentos ensináveis”. Estes caracterizam-se quando a pessoa, ou a família, se encontra endividada ou quando desejam adquirir bens de maior valor – imóvel, imóvel para lazer, e veículos. Fora estas situações, o resultado é menor, ou mais demorado.

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