Como nossas decisões financeiras podem ser impactadas pelo efeito priming

Como nossas decisões financeiras podem ser impactadas pelo efeito priming

Um estudo feito por Cohn, Engelmann, Fehr e Maréchal (2015) teve por objetivo verificar a influência do efeito priming sobre a exposição ao risco de profissionais do mercado financeiro na hora de fazerem escolhas de investimentos.

Antes de falar sobre o experimento, é importante entendermos o que é efeito priming. Trata-se do “modo como um estímulo inicial pode afetar as respostas de um indivíduo a estímulos subsequentes, sem que exista consciência do mesmo sobre tal influência. ” (PACHECO JÚNIOR, DAMACENA, BRONZATTI, 2015).

Mais especificamente, o estímulo que os pesquisadores quiseram aferir foi a influência de um determinado cenário de mercado sobre o comportamento de investimento. Como a exposição prévia a um cenário de alta ou de baixa de ações, e os sentimentos despertados pela exposição a esse cenário, podem afetar a percepção de risco dos investidores e suas estratégias de investimento?

Para responder essa pergunta, fizeram um experimento com 162 profissionais do mercado financeiro, como consultores financeiros, traders e analistas financeiros. O experimento tinha as etapas abaixo descritas e representadas no esquema subsequente:

  1. Os participantes foram aleatoriamente designados a um dos cenários: “Alta” ou “Baixa”. No cenário Alta, os participantes viram um gráfico fictício que simulava a valorização dos títulos. No cenário Baixa, acontecia o contrário, viram um gráfico que mostrava a desvalorização das ações.

 

  1. Após verem os gráficos, os participantes responderam cinco perguntas sobre estratégias de investimento, como: “Imagine que o preço das ações está caindo / subindo e a tendência é que continuem em alta / em queda, como mostrado no gráfico. Você compraria ou venderia ações específicas? Explique brevemente o que você faria. ”

 

  1. Depois, os participantes responderam um questionário que avaliava, a partir de uma escala Likert, seu estado emocional e sentimento de medo.

 

  1. Os participantes receberam 200 francos suíços para decidir o quanto alocar em cada produto de investimento: um de alto risco e com possibilidade de ganhos financeiros e outro sem rentabilidade. Essa etapa, que os pesquisadores denominaram “tarefa de investimento”, teve duas fases. A primeira foi uma fase de total incerteza, em que os participantes não sabiam a probabilidade de ganho ou perda financeira. Depois que fizeram a alocação do capital em cada investimento, passaram para a segunda fase, em que a tarefa era a mesma, mas recebendo a informação de que a probabilidade de lucro ou prejuízo era de 50%. Em ambas fases, se o resultado do investimento fosse positivo, eles ganhariam o dobro do montante ganho. Se fosse negativo, perderiam o valor investido.

Para simular o cenário de certeza ou incerteza, os pesquisadores mostravam aos participantes uma caixa com bolas coloridas.

Na primeira fase, de incerteza, a caixa abaixo era mostrada. As bolas amarelas representavam ganho financeiro e as vermelhas perda. Pelo tamanho da caixa e número de bolas, não era possível saber as chances de ganho ou perda com aquele produto. Depois dos participantes decidirem o quanto gostariam de investir, uma das bolas era sorteada e o participante ficava sabendo se havia ganhado ou perdido dinheiro

Fonte: COHN, Alain; ENGELMANN, Jan; FEHR, Ernst; MARÉCHAL, Michel André. Evidence for countercyclical risk aversion: an experiment with financial professionals. American Economic Review, v. 105, n. 2, p. 860-885, 2015

Na fase de certeza, a caixa abaixo era mostrada ao participante. Portanto, sabia que havia 50% de chance de ganhar dinheiro e 50% de chance de perder:

Fonte: COHN, Alain; ENGELMANN, Jan; FEHR, Ernst; MARÉCHAL, Michel André. Evidence for countercyclical risk aversion: an experiment with financial professionals. American Economic Review, v. 105, n. 2, p. 860-885, 2015

O esquema abaixo traz uma explicação das etapas do experimento:

O que estava sendo avaliado nesse experimento era o efeito priming que a exposição a um cenário otimista ou pessimista exercia na estratégia do participante na quarta etapa do experimento. Será que há diferença no montante investido entre os que foram expostos a um cenário otimista ou pessimista?

A conclusão dos pesquisadores foi de que há diferenças estatisticamente relevantes entre os participantes expostos a cada cenário. Em média, os participantes do cenário “Alta” investiram 57,7% do dinheiro recebido na fase de certeza e 50,3% na fase de incerteza.

Já a média do valor investido pelos participantes do cenário “Baixa” foi de 45,2% do dinheiro recebido no cenário de certeza e 41,9% no cenário de incerteza. Veja no gráfico abaixo.

Esquema dos resultados do experimento

 

Os pesquisadores chegaram à conclusão de que os participantes expostos ao cenário Baixa foram mais conservadores, tanto na fase de certeza quanto de incerteza. A exposição ao cenário pessimista aumentou a aversão ao risco nesse contexto, fazendo os participantes arriscarem menos do que os expostos ao cenário otimista, que investiram mais e, portanto, se expuseram mais ao risco. O tratamento estatístico feito pelos pesquisadores permite concluir que a diferença na quantia investida se deu pela exposição prévia aos cenários de alta e baixa (p = 0,02).

Os pesquisadores também concluíram que o grau de experiência no mercado financeiro não teve impacto para diminuir o efeito priming, pois não encontraram diferenças estatisticamente significativas entre participantes com maior ou menor experiência.

A partir do instrumento de avaliação do estado emocional aplicado na Etapa 3 do experimento, foi identificado que os participantes expostos ao cenário de Alta reportaram menor índice de medo que os do cenário Baixa. As análises do estudo demonstraram que há relação entre o sentimento de medo e a exposição ao risco, reportando que os participantes que tiveram maiores índices de medo fizeram escolhas de investimento mais conservadoras.

As conclusões desse estudo são importantes para refletirmos sobre como nossas decisões são afetadas por fatores que muitas vezes nem nos damos conta do impacto que têm em nós. Notícias que lemos, opiniões de pessoas leigas ou de especialistas que ouvimos, a valorização ou queda de ativos financeiros são eventos que nos provocam sentimentos e têm influência sobre nosso comportamento, e podem estar norteando nossas decisões financeiras sem nos darmos conta. Tomar decisões completamente livres da influência da emoção e de outros aspectos é impossível, mas ainda assim é importante que estejamos cientes dessas influências para que possamos decidir, no tocante a investimentos, da forma mais consciente e informada possível.

 

Referências

COHN, Alain; ENGELMANN, Jan; FEHR, Ernst; MARÉCHAL, Michel André. Evidence for countercyclical risk aversion: an experiment with financial professionals. American Economic Review, v. 105, n. 2, p. 860-885, 2015

PACHECO JÚNIOR, José Carlos Schaidhauer; DAMACENA, Cláudio; BRONZATTI, Rafael. Pré-ativação: o efeito priming nos estudos sobre o comportamento do consumidor. Estudos e pesquisas em Psicologia, Rio de Janeiro, v. 15, n. 1, p. 284 – 309, 2015.

Como lidamos com nossas emoções hora de investir? Uma visão da Abordagem Centrada na Pessoa

Como lidamos com nossas emoções hora de investir? Uma visão da Abordagem Centrada na Pessoa

Segundo a visão da Psicologia Econômica, a oscilação de preços na bolsa de valores não é um fator puramente objetivo. As decisões que os investidores tomam são influenciadas por vieses comportamentais que interferem no modo como os investidores avaliam os preços de mercado e tomam decisões financeiras.

Já vimos em alguns artigos publicados neste blog que a Psicologia Econômica surge buscando explicar observações empíricas que, em princípio, contrariariam pressupostos da teoria econômica clássica – especialmente aqueles relacionados à racionalidade econômica do ser humano que, teoricamente, agiria sempre buscando a maximização de resultados, do ponto de vista financeiro.

Essa área da Psicologia afirma que a subjetividade afeta a percepção e a interpretação dos fatos e, consequentemente, as decisões. Por isso, o estudo do comportamento humano, de suas crenças, ações e sentimentos torna-se importante na hora de fazer escolhas financeiras.

Saindo um pouco da linha de trabalho usualmente explorada pela Psicologia Econômica, a psicóloga Tatiana Tomaselli escreve sobre a tomada de decisões financeiras através de uma perspectiva psicológica pouco utilizada para esse fim, a Abordagem Centrada na Pessoa, desenvolvida por Carl Rogers. A autora resume esse assunto da seguinte maneira:

É um fato que uma determinada ação sofre uma queda de 2%. Mas em relação a isso, o investidor decidirá se vende suas ações desta empresa, se compra mais, ou se não faz nada. Cada atitude que tomar terá um significado diferente para ele. Do mesmo modo, se ele tiver acabado de comprar essas ações ou acabado de vendê-las, logo antes de sua queda, interpretará o mesmo acontecimento de modos diferentes também, de acordo com sua situação.

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Crianças com pouco autocontrole serão adultos com problemas financeiros?

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É amplamente aceito que nossa personalidade e comportamentos quando adultos são influenciados pela criação que recebemos e pela personalidade que desenvolvemos quando somos crianças. Partindo desse pressuposto, os pesquisadores Moffit et. al. (2010) se interessaram em entender como uma característica específica das crianças, o autocontrole, impacta seu comportamento quando adultos. Os pesquisadores queriam saber se, e de que forma, o autocontrole de crianças influenciaria os hábitos de saúde, os financeiros e a propensão a cometer crimes quando virassem adultas.

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Dê sua opinião sobre o Penso, Logo Invisto!

O ano está chegando ao fim e a equipe do Penso, Logo Invisto! está planejando o ano de 2020.

Por isso, queremos saber como nossos leitores e leitoras, frequentes ou ocasionais, avaliam o blog. Queremos levar em consideração a opinião de vocês para readequar o que não vem agradando, manter o que vem dando certo e trazer novidades para ampliar o conhecimento da população em Finanças Comportamentais.

Em razão disso, convidamos a todos e todas a responderem uma pesquisa de opinião. Não leva mais de 5 minutos, e a participação dos leitores e leitoras do blog é fundamental para darmos os próximos passos do Penso, Logo Invisto! na direção do que o nosso público quer e espera.

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Muito obrigado por ter nos acompanhado nesse ano, e esperamos continuar em diálogo no ano que vem.

Um bom final de ano e feliz 2020 a todos os leitores e leitoras do blog!

Por que as pessoas ainda são alvo de esquemas de pirâmide?

Uma queixa que tem se tornado relevante nos canais de comunicação da CVM é referente a pirâmides financeiras. A quantidade de reclamações recebidas pela CVM relacionadas ao assunto tem evidenciado a gravidade de práticas dessa natureza – e, em uma era de facilidade de acesso à informação como a que vivemos, fica a dúvida: por que as pessoas continuam caindo nesses esquemas?

Saiba mais sobre Investimentos Irregulares no 2º Boletim de Proteção do Consumidor/Investidor da CVM e sobre Marketing Multinível e Pirâmides Financeiras no 6º Boletim de Proteção do Consumidor/Investidor.

Promessas de ganhos altos, em pouco tempo e com pouco esforço. Cenários econômicos desfavoráveis e taxa de desemprego. Vamos abordar esses aspectos e como eles afetam nosso comportamento.

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